poeminhas, tex(perimen)tos

poema brevíssimo para J

Nunca vou me esquecer de Quando.
Fui fatia de pão. Francês, você
passou manteiga
em mim – a vaca riu (boca
cheia de capim do meu
pasto púbico). Mu.

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poeminhas, tex(perimen)tos

oh Captain, my captain

Da varanda do primeiro andar calculo o
salto – sua língua é um trampolim
bambo: mergulho em vinho branco e afogo
os pulmões no cigarro que você
acendeu pra mim.

Submersa, a fumaça
exalada compete contra a luz
laranja dos postes
da rua Humaitá.

Juízes olímpicos me penalizariam
pelo estardalhaço da queda. Mas é
tão baixo, nem
dá pra morrer.

Eu só queria te ensinar o dó ré mi, como
se eu fosse Maria e você, uma criança
von Trapp. Mas eu me chamo
mesmo Maria e você
é o Capitão de
mim.

Sol dó lá fá mi dó ré
Sol dó lá si dó ré dó

Dó mi mi
Mi sol sol
Ré fá fá
Lá si si

(Trilha sonora de um estupro)

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poeminhas, tex(perimen)tos

tortura

Que nem uma torta que se esconde no fundo da geladeira

pra comer mais tarde

Ele a guardava no seu frigobar torácico

E num momento de fome se serviria dela

Antes que apodrecesse

De acordo com a data de validade

Encobriu-a de alumínio

Pra conservar o seu sabor

Isolando-a de outros cheiros refrigerados

E dos paladares alheios

Que quisessem prová-la antes de si

Mas então foi ao mercado

E se encheu de provisões

Que abarrotaram o seu minifrigorífico cardíaco

Obstruindo o embrulho metálico

E o seu conteúdo

Ele comia o que o braço alcançava primeiro

Um gosto novo a cada dia

Até que os mantimentos escassearam

Mas o apetite perseverou

Com poucas opções

Ele vasculhou o interior do seu peito-refrigerador

E descobriu uma forma de papel-laminado

Esquecida num canto úmido

Sem reconhecer a embalagem

Ele salivou de expectativa

Diante da possibilidade de uma refeição

E a rasgou sem cuidado

A torta desnudada não decepcionou em aspecto

Mas a primeira mordida já revelou o recheio azedo

E a textura que machucava os dentes

Mal dava pra mastigar

Ainda pela metade

O alimento intragável foi abandonado na beira da pia

Pra que alguém o descartasse

No cesto de lixo orgânico

De preferência

A fatia que ele comeu

Se digeriu numa dor de barriga

Da qual ele se despediu com uma descarga

E migalhas de massa fria grudadas no céu da boca

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