poeminhas, tex(perimen)tos

oh Captain, my captain

Da varanda do primeiro andar calculo o
salto – sua língua é um trampolim
bambo: mergulho em vinho branco e afogo
os pulmões no cigarro que você
acendeu pra mim.

Submersa, a fumaça
exalada compete contra a luz
laranja dos postes
da rua Humaitá.

Juízes olímpicos me penalizariam
pelo estardalhaço da queda. Mas é
tão baixo, nem
dá pra morrer.

Eu só queria te ensinar o dó ré mi, como
se eu fosse Maria e você, uma criança
von Trapp. Mas eu me chamo
mesmo Maria e você
é o Capitão de
mim.

Sol dó lá fá mi dó ré
Sol dó lá si dó ré dó

Dó mi mi
Mi sol sol
Ré fá fá
Lá si si

(Trilha sonora de um estupro)

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brincando de ser séria, tex(perimen)tos

Dos filhos deste solo

O letrista do hino nacional – Joaquim Osório Duque Estrada, morto em 1927 – era mais evoluído em sua consciência de gênero e estrutura familiar do que muitas pessoas “atuais”.

Ao dizer: “Dos filhos deste solo és mãe gentil,/ Pátria amada,/ Brasil!”, Estrada atribui tanto a maternidade, gentil, quanto a paternidade, amada, dos filhos deste solo a(o) Brasil, reconhecendo e valorizando a missão dupla enfrentada por vários pais e mães solteiros, ainda hoje desprezados por muitos.

Outra interpretação dessa passagem, nos permite inferir que gênero, na noção do autor, não é necessariamente categórico nem restritivo, podendo coexistir entre si as qualidades masculinas e femininas, paternal e maternal. Mesmo atualmente, essa perspectiva continua a ser negada pelo sexismo e seu número não-pequeno de adeptos.

Tais pressupostos – expressos num poema decassílabo de conhecimento coletivo brasileiro, datado de 1909, imortalizado como símbolo nacional – ainda encontram, em 2014, resistência de assimilação de grande parcela daqueles que enchem os pulmões para declamar o que ouviram as margens plácidas do rio Ipiranga. Isso é, no máximo, paradoxal, e, no mínimo, chocante.

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brincando de ser séria

Sobre Lulu

Confesso que não resisti quando descobri que o Lulu tinha chegado ao Brasil. Nunca tinha ouvido falar nele antes, mas a sua proposta e o bafafá ao seu redor foram o suficiente para despertar o meu interesse. Sucumbi à sua sedução e baixei.

Que atire a primeira pedra quem nunca quis saber o que a boca do povo tem a dizer sobre o seu ex ou atual namorado, ficante, pente certo ou, até mesmo, os amigos e conhecidos.

Acessando o aplicativo pela primeira vez, demorou um pouco até que ele se ajustasse às configurações locais… De repente, uma enxurrada de rostos masculinos familiares inundou a tela do meu celular, todos disponíveis para “avaliação”.

A promessa do anonimato, supõe maior liberdade na hora de julgar o réu, mas não quer dizer que a sentença será justa.

Na verdade, não somos nós, mulheres, que damos notas aos homens no Lulu. Nós simplesmente respondemos um questionário com perguntas genéricas sobre aspectos como humor, educação e sexo. As opções são extremas e vagas. Depois, marcamos – sem restrição quantitativa – as hashtags que “melhor” exprimem as qualidades e os defeitos do examinado.

Então, o Lulu calcula a média final do indivíduo, distribuindo pontos entre os critérios que foram questionados. O resultado não deve ser levado em consideração, pois raramente exprime a realidade e é facilmente manipulável, para o bem ou para o mal.

As hashtags de Lulu são engraçadas. Elas definem “defeitos” e “qualidades”; a referência para dividir as características entre boas e ruins, no entanto, não é clara. Por exemplo, #4e20 é considerada defeito, já #QuaseUmFãDeComédiaRomântica é tida como qualidade, o que quer que isso signifique.

Outra coisa curiosa sobre as hashtags é que os homens que fazem log in no Lulu podem usá-las para descrever a si mesmos e o que lhes atrai ou repele no comportamento feminino. Entre as preferidas deles estão as #Bi, #Depilada e #GostaDeFazerOral. Eles não gostam das #Interesseira, #SeFazDeTonta e #BebeAtéCair. Essas características não podem ser atribuídas pelas mulheres aos homens; em vez disso, há #MãosFortes e #LábiosDeMel contra #NãoQuerNadaComNada e #PrefereOVideogame.

Engraçado, não?

Um aplicativo machista para dar liberdade anônima (?!) à mulher “moderna”. Lulu é um paradoxo.

Tudo o que eu ouvi por aí são críticas negativas ao Lulu. Ele não goza da melhor das reputações. Mesmo assim, me diverti com ele e recomendei para as amigas. Ele entretém e demonstra, pra quem duvidava, que a igualdade entre os gêneros ainda é uma utopia.

Não adianta, contudo, torcer o nariz; indignar-se com Lulu é dar credibilidade a ele, e não se deve fazer isso.

P.S.:  A hashtag #4e20 está associada ao consumo de maconha; 16h20 é considerado um horário-referência para o fumo da erva.

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