poeminhas, tex(perimen)tos

oh Captain, my captain

Da varanda do primeiro andar calculo o
salto – sua língua é um trampolim
bambo: mergulho em vinho branco e afogo
os pulmões no cigarro que você
acendeu pra mim.

Submersa, a fumaça
exalada compete contra a luz
laranja dos postes
da rua Humaitá.

Juízes olímpicos me penalizariam
pelo estardalhaço da queda. Mas é
tão baixo, nem
dá pra morrer.

Eu só queria te ensinar o dó ré mi, como
se eu fosse Maria e você, uma criança
von Trapp. Mas eu me chamo
mesmo Maria e você
é o Capitão de
mim.

Sol dó lá fá mi dó ré
Sol dó lá si dó ré dó

Dó mi mi
Mi sol sol
Ré fá fá
Lá si si

(Trilha sonora de um estupro)

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poeminhas, tex(perimen)tos, tradução

um poema da sua ex-namorada para o novo amor da sua vida

Se ela te perguntar
Se ela te perguntar quem eu sou, conta pra ela. Conta pra ela
porque ela não tá pondo lenha na fogueira por uma explicação, ela só quer
uma confissão.

Se você disser pra ela que eu sou só uma garota com quem você ficou
por alguns anos, ela só vai te encher o saco.
As centenas de fotos nossas marcadas em tempos remotos da sua timeline e
a pilha
de livros com nossos nomes escritos vão ser as armas dela.

Se você disser pra ela que eu sou só uma antiga amiga, ela vai se fazer
de surda. Ela vai se lembrar de como você olhava
os lugares
com uma pontada de arrependimento e um quê de nostalgia. Ela vai
se lembrar
de como você pulava aquela música – um lembrete de algo
que você vai achar uma desculpa
pra esconder dela sempre que o rádio do carro estiver ligado.

Se ela te perguntar quem eu fui, conta uma mentirinha,
porque ela não tá passando dos limites atrás de respostas,
ela só quer afirmações.

Não conta pra ela como os nossos lábios brincaram com poesia e como
ousamos
sonhar sob a luz do satélite taciturno. Pula a parte
em que a gente
lutou juntos contra dragões e como a gente deu nomes pras cicatrizes
um do outro.

Omite o fato de que você ainda guarda as cartas, os bilhetes, as antigas
notas fiscais de restaurantes no fundo
das suas gavetas e alguns pensamentos manchados de lágrimas, no verso
do seu travesseiro. Ela não precisa saber
por que você releu conversas antigas nem por que sua mãe
mencionou meu nome num jantar da sua família
só pra descobrir como eu estava.

Por fim, se ela perguntar quem eu fui pra você, diz pra ela que você ama ela.
Põe ela nos holofotes
porque ela só está te testanto pra ver se você dispara o gatilho
apontado contra ela.

Mas você não vai. Em vez disso, você vai falar que ela é bonita, pra
compensar
pelas palavras que você nunca teve coragem de me dizer. Você vai falar
pra ela que ela é “pra casar”, só pra jogar papo fora.
Você vai contar pra ela sobre uma pesquisa precária sobre células humanas
serem substituídas após sete anos, de forma que um dia
seu corpo não terá mais nenhum resquício de mim.

Então ela vai esquecer que você falou meu nome durante
o sono. Ela vai lavar as marcas de batom
dos seus lençóis e descartar a escova de dentes extra no
box do banheiro. Ela vai ignorar o jeito que você treme
sempre que ouve um autor familiar ou o meu palavrão
favorito. Ela vai preencher os vãos
dos seus dedos e cobrir de beijos os buracos do seu peito.
Ela vai substituir cada aroma meu
com seus próprios erros, promessas e inseguranças.

Ela vai fazer isso. Ela vai, porque quando ela te perguntou sobre
mim,
ela sabia que eu era o seu fantasma. E no fundo
da sua consciência, você queria dizer pra ela
que os assombrados não precisam mais de exorcismo. Mas de todas as formas,
querido, ela pode tentar.

(Essa é a tradução do poema “A Poem from Your Ex Girlfriend to The New Love of Your Life”, escrito por A.A. Dizon e publicado no blog Artparasites – link: http://www.artparasites.com/a-poem-from-your-ex-girlfriend-to-the-new-love-of-your-life/)

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