poeminhas, tex(perimen)tos

coringa (para M)

Você se vestiu de Darth
Vader (por favor seja meu
pai): jeans Armani e covinhas
nas costas – buraco
onde você me enterrou depois
de me laminar em postas de
sushi com o seu sabre de luz
cego. Canastra suja.

Descartaram as minhas
amídalas embebidas em
shoyu, lixo tóxico embaralhado.
Na sua corte, eu nunca
vou ser Padmé; só um bobo
bidimensional com selo
Copag.

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poeminhas, tex(perimen)tos

zoodíaco

Nascido em ano sino-suíno,
você tem idade ímpar em ano par:
sinal astral pr’a gente formar um par

(logo eu que sou de ascendente descrente).

Mas o cigano leu a sorte nas rugas da minha
mão, que sua feito um porco ao seu toque,
embora eu seja peixes, nadando num
aquário de previsões.

E se o horóscopo diz que eu vou ser feliz,
dispenso jogar minha moedinha no chafariz
substituo o meu desejo por um Matte Leão
e te ofereço um gole (prova

de amor).

Já até calculei a numerologia dos nomes
dos nossos filhos.

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poeminhas

Não se mate

Vera, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje manda mensagem, amanhã não manda
(talvez seja hora de você puxar assunto),
depois de amanhã vira o mês,
o plano de dados da sua operadora renova,
são tantos megabytes, ninguém sabe
o que será.

Inútil ficar ansiosa
ou mesmo querer bloquear das redes sociais.
Não se mate, oh não se mate,
Reserve-se toda para
a curtida que ele vai dar na sua foto
quando curtir,
se é que vai curtir.

O amor, Vera, seu celular vibrando na bolsa,
a Noite deu follow em você,
e os recalques tuítando indiretas,
lá dentro o ruído de um áudio de WhatsApp indecifrável,
música de festa no fundo,
listas no Bloco de Notas,
selfies em espelhos,
screenshots do Instagram dos outros,
informação que ninguém sabe
de quê, praquê.

Entretanto você dá scroll down na página
cabisbaixa e blasé.
Você é a tomada, você é o aviso
de economia de energia
e o brilho de tela que diminuiu.
O amor no Mural e não no quarto
é sempre triste, minha filha, é claro,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.
Não se mate.

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brincando de ser séria, poeminhas, tex(perimen)tos

Steve Martin

Me visto de couro, do meu próprio corpo
Tecido adiposo pra você rasgar, a malha
mais pesada de trajar, do peso do ouro

Me enrolo em corda e te mostro a faca
Você só me solta, não faz mais nada
E isso machuca mais que qualquer facada

Tento, em vão, inverter a posição, eu quero
ser sua dominatrix, algum tipo de tentação
Mas você prefere assistir uma série no Netflix

Então ponho Lady Gaga pra tocar e te convido
pra escrever um romance ruim, você não duvida
de mim e compõe: Cinquenta tons de indiferença

Pesquiso no Google o que dói mais, se é carne ou
se é ego, quando eu me entrego mas resultado não há
pra busca que você não quis me procurar

E nem Freud explica o porquê eu sou tão
masoquista se nenhum sádico paga pra ver
Nem um sádico como você

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poeminhas, tex(perimen)tos

tortura

Que nem uma torta que se esconde no fundo da geladeira

pra comer mais tarde

Ele a guardava no seu frigobar torácico

E num momento de fome se serviria dela

Antes que apodrecesse

De acordo com a data de validade

Encobriu-a de alumínio

Pra conservar o seu sabor

Isolando-a de outros cheiros refrigerados

E dos paladares alheios

Que quisessem prová-la antes de si

Mas então foi ao mercado

E se encheu de provisões

Que abarrotaram o seu minifrigorífico cardíaco

Obstruindo o embrulho metálico

E o seu conteúdo

Ele comia o que o braço alcançava primeiro

Um gosto novo a cada dia

Até que os mantimentos escassearam

Mas o apetite perseverou

Com poucas opções

Ele vasculhou o interior do seu peito-refrigerador

E descobriu uma forma de papel-laminado

Esquecida num canto úmido

Sem reconhecer a embalagem

Ele salivou de expectativa

Diante da possibilidade de uma refeição

E a rasgou sem cuidado

A torta desnudada não decepcionou em aspecto

Mas a primeira mordida já revelou o recheio azedo

E a textura que machucava os dentes

Mal dava pra mastigar

Ainda pela metade

O alimento intragável foi abandonado na beira da pia

Pra que alguém o descartasse

No cesto de lixo orgânico

De preferência

A fatia que ele comeu

Se digeriu numa dor de barriga

Da qual ele se despediu com uma descarga

E migalhas de massa fria grudadas no céu da boca

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poeminhas, tex(perimen)tos

homem do tempo

Não sai mais de casa
sem checar, no Climatempo,
a máxima do dia.
A janela fechada
deixou de anunciar
qualquer sensação
térmica.

Na bolsa, um cachecol
pra, em caso de mínima,
proteger a garganta
da amidalite crônica,
e um guarda-chuva,
não importa a umidade
relativa do ar,
o penteado não permite
correr riscos.

Mas a meteorologia prevê
mais um belo dia de sol
pra se desperdiçar
dentro do shopping,
na climatização artificial,
cultura de germes.
Temperatura agradável.

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